Bate-papo com a “Crew Administrator” Lara Lews

Bate-papo com a “Crew Administrator” Lara Lews

Convidamos para um bate-papo, a “crew administrator” Lara Lews , que trabalha nos navios Royal Caribbean Intl. há 12 anos.

No Instagram da CRUZEIRAR É PRECISO, recebo várias perguntas sobre “como se tornar um tripulante”, sugestões para conversas ou “lives” com alguém que trabalhe a bordo ou, simplesmente, dúvidas comuns sobre a vida dentro do navio (dia a dia, rotina de trabalho, onde dorme, salário em dólar etc).

Desse modo, para ajudar a responder essas e várias outras questões sobre o assunto, a Lara conversa com a gente.

Bora lá.

Lara Lews
Lara Lews

 

Conte um pouco sobre você.

Então, meu nome é Larissa. Lara é apelido desde que eu estava na barriga da minha mãe, pois ela escolheu meu nome inspirada na música tema do filme Dr. Jivago, “Tema de Lara”. “Lews” é charme mesmo. Hahahaha.

Nasci no interior de Minas Gerais e fui morar em Brasília aos 9 anos de idade. Se você está lendo isso após o dia 28 de março, eu já fiz aniversário (e estou adorando os 30).

Sou formada em Relações Públicas na Capital federal e, recém-formada, fui passar férias no Rio de Janeiro, onde me encantei pelos navios no porto e logo embarquei para o meu primeiro contrato em 2009.

Como surgiu a vontade para trabalhar a bordo de navios de cruzeiro?

Era para ser um trabalho de verão. Vi os navios no porto do Rio de Janeiro, procurei uma agência, fiz o processo seletivo e, 6 meses depois, embarquei para o meu primeiro contrato e nunca mais parei.

Quando voltei para o segundo contrato, fui determinada a ficar somente por mais 3 meses caso não mudasse de função. Mudei de departamento e me adaptei muito rapidamente à rotina. Dormir na Itália e acordar na Grécia é bom demais.

O que você precisou fazer para conseguir emprego em uma companhia marítima?

Principalmente falar inglês. Eu tinha uma experiência bem limitada em bar, mas tinha muita noção de serviço, de atendimento ao cliente. Estudei sobre as bebidas, os drinks e me preparei para a entrevista. Estudei inglês dos 15 aos 18 e nunca mais parei de praticar a língua de todas as formas que pude. Filmes e séries sem legenda, livros e músicas em inglês, e tive um namorado inglês no Rio de Janeiro também. Ele queria aprender português e eu inglês. Foi perfeito.

Uma vez aprovada, qual foi a reação da sua família/amigos quando você disse que iria embarcar? Eles apoiaram a sua escolha?

Apoiaram. Mas como bons mineiros ficaram com o pé atrás. Eu também.

Pesquisei bastante sobre a Royal Caribbean, sobre tráfico de pessoas, prostituição na Europa e tudo mais, visto que meu primeiro voo era pra Veneza com conexão em Paris.

Meu tio fez questão de me dar dólares para levar, procurei saber onde era a Embaixada Brasileira, ativei o roaming internacional do telefone e fui. Se desse algo errado, eu tinha recursos pra voltar na hora.

Na época, minha tia também morava na Espanha. Na pior das hipóteses eu tinha para onde ir. Mas todo mundo falou “Vai Lara! Esse job é a sua cara”.

Sabe o mais engraçado? Depois que cheguei lá, eu ficava tão empolgada para sair e conhecer os lugares, afinal estava em Veneza todo sábado, segundas, terças e quartas nas ilhas da Grécia e quintas na Turquia (sem contar algumas paradas na Croácia), que só tirava fotos quando eu saía. Até que um dia eu pensei “gente, preciso tirar uma foto de uniforme e mandar para minha mãe, para ela saber que trabalho no navio mesmo”.

A internet era bem mais limitada que agora e muito cara. Telefone também. Então eu ligava bem pouco para casa. Minha família sofreu um pouco com isso. Eu? Eu estava na Europa, gente, ganhando em dólar e gastando em euros, aos 23 anos de idade. Eu só queria curtir. Hahahaha. Pagava 2 euros em 1 lata de guaraná Antártica na vendinha de tripulantes em Veneza e achava o máximo.

Lara Lews
Na ponte de comando do Freedom of the Seas

Qual o primeiro navio que você trabalhou? E quais você já esteve como “crew member”?

No navio queridinho da temporada brasileira: o Splendour of the Seas.

Quando recebi a notícia na agência que iria para o Splendour, várias pessoas falaram “nossa, você vai para esse navio velho. Todo mundo fala que ele cheira enferrujado”. Pensei: me ferrei! Mas não. O Splendour era velho sim, foi inaugurado em 1995, mas a manutenção dos navios é diária e a Royal preza muito pela segurança e aparência dos seus navios. Tanto que, 2 anos depois, o navio foi para uma reforma completa (dry dock) e saiu novinho.  Ali foi a minha primeira lição de não escutar a opinião das pessoas e tirar minhas próprias conclusões das coisas que ainda estariam por vir nessa nova empreitada.

No segundo contrato fui para o Voyager of the Seas, e com 3 meses que estava lá fui transferida. Advinha para onde? Splendour of the Seas. Hahahahha. Todos “os filhos” do Splendour uma hora voltam para lá.

Desde então, estive no Oasis of the Seas, Harmony of the Seas (os maiores do mundo), Vision of the Seas, Majesty of the Seas, Rhapsody of the Seas, Freedom of the Seas, Navigator of the Seas, e o mais recente, Spectrum of the Seas (estava zarpando de Shanghai / China, em janeiro de 2020, quando o Covid-19 se disseminou e nós tivemos que sair da China e procurar um porto mais seguro). Além desses, eu fiz cruzeiros de férias no Allure of the Seas, Explorer of the Seas e Independence of the Seas. E sim, nós tripulantes fazemos cruzeiros nas férias porque cruzeirar é muito bom.

Lara e Johnny Faevelen
Com o famoso capitão Johnny Faevelen e sua Harley Davidson, no Harmony of the Seas

Já trabalhou em quais departamentos dentro do navio?

Trabalhei em 3 departamentos: Bar, Recepção (Guest Services) e Recursos Humanos.

Atualmente, qual a sua função como oficial?

Sou Crew Administrator. Administradora de RH.

O que uma “Crew Administrator” faz?

A bordo, somos todos multitarefas. Ou seja, minhas atividades vão desde assinar documentos por representação do capitão e até produzir festas.

A minha função básica é organizar a documentação necessária para fazer a liberação do navio perante as autoridades em cada porto que paramos. Lido diretamente com agentes portuários, oficiais de imigração, alfândega, controle sanitário (tipo nossa Anvisa), autoridades portuárias, polícia, etc. Uma boa parte dessa documentação inclui movimentações de tripulantes. Gente indo para casa de férias ou indo para outro navio e gente chegando de férias. Eu que faço todo o processo de imigração, visto e sou responsável por guardar (e salvar, em caso de evacuação de emergência) os passaportes de toda a tripulação.

Além disso, têm todas as atividades de um escritório de RH, atendimento ao público, gerenciamento de crises, organização de cabines, demissões, auxílio quando o tripulante tem uma emergência em casa, como morte na família, etc. Em um navio como o Harmony, com 2500 tripulantes, meu time é composto por 6 pessoas, mais o gerente do departamento. Mas só tem uma (um) Crew Administrator por navio, com exceção de quando o navio está na Ásia, que daí, temos dois.

Já passou por situações engraçadas (ou inusitadas) a bordo? Pode contar algumas?

Nossa, várias. Acho que na recepção mais, principalmente na temporada brasileira. A gente trabalha muito na temporada brasileira, muito mais que na europeia ou caribenha, mas o clima é bem mais leve. E poder comer pão de queijo toda vez que chega em Santos faz toda a diferença na vida da mineira aqui.

Situações com malas. Quem já fez cruzeiro no porto do Santos já viu o terror que é despachar as malas por lá (espero que tenham mudado). E daí, sempre acontece de uma mala ir parar em outro navio. Quando eu fui Oficial de Desembarque (Guest Departure Officer) eu também era responsável por malas perdidas e confiscadas. Por motivos de segurança, malas que contêm ferro de passar, bebidas alcoólicas e itens não identificados que podem ser um risco para a segurança são confiscadas. Uns hóspedes vieram na recepção buscar a mala e eles já estavam bem alegres, provavelmente de alguns drinks. Mas já sabiam por que a mala tinha sido confiscada. Eu toda séria falei que precisava que eles abrissem a mala para eu ver o que tinha de eletrônico dentro. Eram vibradores. Eles riam disparadamente. Eu só pensei: adoro pessoas felizes e bem resolvidas. Vão ser felizes!

Outra situação foi no primeiro contrato quando um hóspede tentou me beijar. Como sou pequenininha, saí pela tangente. Hahahaha!

E o confinamento a bordo? Como é o relacionamento entre a tripulação (amizades, namoro, tretas)? Abra o jogo (rs)!

A palavra “confinamento” me incomoda um pouco, pois afinal podemos tentar organizar nossa escala de trabalho para sair em um porto aqui e outro ali, mas é muito parecido com o Big Brother sim. Meu amigo Daniel Dornas faz essa comparação no canal dele no Youtube (depois deem uma olhada).

Eu trabalho no RH, então sei de muitas tretas, mas tudo o que entra lá é confidencial. Mas vou falar que o lugar para ficar sabendo de tudo mesmo é no refeitório. Eu aprendo mais lá do que no meu escritório.

Tenho amigos no mundo todo, amigos do primeiro contrato que são para a vida, tive 2 namoros longos, e tenho amigas que conheceram seus maridos a bordo, casaram e são felizes, em terra ou a bordo com os respectivos.

Amizades, inimizades, brigas, traição, romance, novela mexicana, namoro, casamento, tem de tudo. Agora, o fundamental é não deixar afetar o profissional. Chegou na hora do seu trabalho, é trabalho.

Inteligência emocional é fundamental para a vida, mas a bordo, se você não tem e você não tenta aprender a ter, você sofre muito. Por isso falamos quem tem gente que não é para navio e não é mesmo. E tudo bem. Precisamos conhecer nossos limites, nossas forças e nossas fraquezas.

Uma outra coisa que pode ser difícil de lidar para algumas pessoas é com a diferença cultural também. Eu já tive um namorado turco que queria continuar namorando comigo e com outra menina. Na cultura dele é normal. Eu não quis e saí fora. Sem “achar um absurdo”. Minha mãe diz, “cada um com seu cada qual”. O fundamental é respeitar as diferenças.

Lara Lews no Flowrider
Flowrider – Spectrum of the Seas

Dizem que o trabalho em navios é muito estressante (equilíbrio entre a vida pessoal e profissional). Como você lida com essa pressão?

Quando eu era da recepção, dava para separar o trabalho da vida pessoal, pois trabalhava com os hóspedes. Hoje no RH, isso fica mais difícil. Se eu estou no refeitório sem uniforme, alguém vem falar comigo de trabalho. Se estou na academia, alguém me faz uma pergunta de trabalho. É normal.

No início, quando fiz a mudança de departamento, achei estranho mas depois comecei a ver que é isso. Eu sou o meu trabalho e pronto. 2 em 1. E vi que estando ali no refeitório ou na academia, fico mais acessível para as pessoas. Como falei, aprendo mais sobre as pessoas e sobre o que elas precisam no refeitório do que no meu escritório. Ao final, o tripulante tem uma escala de aproximadamente 12h de trabalho, ter que lembrar do horário que o escritório de RH abre e fecha para você fazer uma pergunta é um saco. Então vamos dizer que assumi a pressão e é isso aí. Levar na leveza é mais fácil que nadar contra a corrente.

Agora, o que eu gosto de fazer é desconectar quando eu saio. Andar de bicicleta, ir à praia, faço yoga, trilha. Para mim, o contato com a natureza é sempre o melhor remédio. Pegar sol e respirar fundo sempre faz bem.

Pulpit Rock – Noruega
Pulpit Rock – Noruega

Quais dicas você daria a quem pretende ingressar nesse universo dos cruzeiros?

ESTUDO E PLANEJAMENTO.

Gente, não se aprende uma nova língua do dia para noite. Estou aqui penando agora para aprender francês. Então, se tem que aprender inglês mesmo, invista em um professor particular (se você tem pressa) ou um curso bom de no mínimo 3 vezes na semana. Acho 2 vezes muito pouco contato com a língua, até porque depois de 2h de aula você está bem cansado.

A Universidade de Brasília tem o centro de línguas e tem 2 intensivos por ano além dos cursos regulares (100% online com preços ótimos). Certamente, outras Universidades oferecem também. Curso intensivo é uma excelente maneira de começar, pegar um ritmo de aprendizado e não parar.

Planejamento, principalmente financeiro.

Embarcar pela primeira vez não é barato. É um investimento. Aproveite o tempo que você está estudando inglês para juntar essa grana.

Vou arredondar os preços aqui, mas a média é essa:

  • STCW (curso básico de segurança de navios): 700 reais
  • Exames médicos: 2.000 reais
  • Passaporte: 258 reais
  • Visto americano: 150 dólares (Cotação do dólar hoje: 5,76 = 864 reais)

Quando chegar lá, tem que comprar seus uniformes. Coloca aí uns 150 dólares. (Serão pagos com seu primeiro salário).

Indico o canal do meu brother Daniel Dornas que fala muito bem de carreira a bordo e o Instagram @_crewlife que tem várias informações também.

Devido à pandemia, os cruzeiros do mundo todo pararam de vez. O que você fez (está fazendo) durante esse período de paralisação?

No início estava inquieta, queria fazer tudo. Queria estudar tudo, ler tudo.

A Royal Caribbean tem uma parceria com a Universidade Cornell em Nova Iorque e me faltava um módulo do curso para terminar e pegar meu certificado. Fiz isso ano passado e continuo fazendo outros cursos na plataforma online da Universidade. Que é uma oportunidade maravilhosa.

Decidi, também, me dedicar a uma nova língua: o Francês. Trabalhando a bordo, é difícil de se organizar para fazer um curso sempre no mesmo horário. E neste momento, também estou tirando a certificação de instrutora de yoga através da escola de yoga que visitei quando fui à Índia.

Uma amiga italiana me apresentou yoga a bordo e eu me apaixonei. Ela tinha 40 anos e eu 27, e ela era muito forte. Pensei “quero envelhecer assim também”. Então resolvi aprender mais para me dedicar a prática. Não penso em dar aulas ainda, mas a yoga me ajuda muito a ter foco e ter mais consciência corporal. Nós negligenciamos muito o nosso corpo na correria do dia a dia e ele está sempre mostrando o que precisamos, física e emocionalmente. A yoga incorpora tudo isso e eu agradeço muito à Roberta por ter me apresentado à prática.

Conhecendo as maravilhas do mundo – Taj Mahal, Agra / Índia
Conhecendo as maravilhas do mundo – Taj Mahal, Agra / Índia

Vai embarcar novamente quando a pandemia acabar?

SIMMMM! No momento digo que sim. Quero muito! Minha tia olha para mim e fala “tá com saudades do mar né minha filha?” E de ganhar em dólar e ter a melhor rotina que existe.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas né?!

No momento, eu só queria que as pessoas tivessem mais consciência do papel delas na sociedade e tivesse mais cuidado e mais responsabilidade nas atitudes delas. Cada um fazendo o que pode para conter a contaminação pelo vírus até todos estarem vacinados.

Qual o destino dos seus sonhos?

Sobre viagens eu não tenho sonhos, eu tenho metas.

Poder trabalhar 6 meses e planejar uma viagem para o outro lado do mundo é um privilégio. Por isso quero tanto voltar para os navios.

A bordo, eu quero ir para a Rússia, um cruzeiro que uma vez fui escalada para ir, mas no meio do caminho mudaram minha rota por que tiveram uma demissão em outro navio e precisaram de mim lá.

Agora, meus próximos planos de viagem era completar as 7 maravilhas do mundo nos próximos 2 anos. Faltam as Pirâmides do Egito, Petra na Jordânia e a Muralha da China (que estava programada para 2020, visto que eu estava na China a bordo do Spectrum of the Seas, em janeiro, quando a pandemia começou). Mas tenho uma lista imensa de lugares no Brasil que quero conhecer. Prometi a mim mesma conhecer 2 lugares diferentes do Brasil por ano.

Para terminar o nosso bate-papo, como você se define?

Um ser mutante.

Estamos todos em constante evolução, e saber se enxergar e olhar para si e falar “mudei de ideia. Não gosto mais disso. Agora isso me agrada e não me agradava antes. Descobri que isso (ou essa pessoa) não me faz bem”, é imprescindível para essa evolução pessoal.

Sou muito honesta e não muito gentil comigo mesma. Sou muito exigente comigo, e preciso exercitar me cobrar menos.

Cococay – Ilha privativa da Royal Caribbean
Cococay – Ilha privativa da Royal Caribbean

 

Obrigado pelo bate-papo, Lara! Incrível a sua história.

Tenho certeza que muitas pessoas irão se inspirar no seu relato e “seguir rumo ao sonho de trabalhar a bordo”, ou “matar” um pouco da curiosidade de como é a vida dentro de um cruzeiro.

Desejo muito sucesso pra você!

E bora conhecer o resto do mundo (rsrs)!

 

Quem tiver alguma pergunta, dúvida ou sugestão de assunto relacionado com o trabalho a bordo de um navio de cruzeiro, deixe nos comentários abaixo.

A Lara responderá a todos.


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